A Kgaleria está de parabéns!
Parece que foi ontem, mas já passaram três anos. É tempo de festa para todos os que protagonizaram este projecto e para aqueles que nele acreditaram. É, pois, tempo de celebração, de compartilhar a alegria de ter até aqui chegado, rever o que não foi conseguido, retemperar forças e continuar em frente.
Uma galeria de arte constitui sempre um projecto arriscado e, quando é especificamente de fotografia, o risco é acrescido. Ao longo destes três anos a Kgaleria demonstrou que é possível, a par de uma coerente programaçã que inclui percursos de reconhecidos autores, realizar um notório trabalho de divulgação de jovens fotógrafos.
Como pretexto para a exposição comemorativa da passagem deste terceiro aniversário propôs-se que cada fotógrafo realizasse uma imagem com referência a outra já existente. Estamos, pois, perante uma atitude muito típica da pós-modernidade em que as atitudes de apropriação têm lugar recorrente e que atinge a sua mais óbvia expressão no trabalho de Sherry Levine. Aí a autora refotografa obras de conhecidos autores, mas assume por completo a atitude plagiadora remetendo para a questão do original e da reprodução, quase numa espécie de exemplificação do discurso de Walter Benjamin. Os anos de 1990 conheceram também um vasto conjunto de trabalhos que corporizavam homenagens a autores conhecidos. Nesta exposição estamos face a tudo isto e também perante uma interessante questionamento e reflexão da actual fotografia portuguesa.
Todo o conjunto se reveste de interesse e matéria exploratória, porém, e de acordo com o terceiro aniversário, decidi seleccionar três imagens para uma breve consideração. “Homem de fato de linho” remete-nos naturalmente para Robert Maplethorpe, numa imagem donde sobressai um pénis negro. Mas esta imagem joga de forma criativa com algo muito presente na fotografia que é a ambiguidade. Aqui, a ausência do sexo masculino conduz a uma metáfora do sexo feminino, na forma como a braguilha se apresenta, procurando desviar-nos dessa realidade através da semântica do título. “Emma Pires” é outro exemplo de apropriação, no caso, à obra de Alberto Garcia-Alix. Um retrato de duas metades suspenso por uma mão masculina que nos leva a reflectir sobre o complexo território do retrato fotográfico e respectiva forma de teatralização.
Finalmente, a intrigante imagem “Anónimo, século XX”. Afinal o que é a fotografia? O que é uma fotografia? Esta, em particular, conduz-nos a uma infinidade de questões deste meio de representação, em que o autor nos pretende remeter para uma aparente banalidade do erro técnico que simultaneamente nos nega a identidade intencional do retrato. A fronteira entre o amador e o profissional. O que nos faz distinguir um retrato comercial dum retrato de Thomas Ruff?. Deixo esta e outras questões para cada espectador desta exposição reflectir em torno delas e encontrar as suas próprias respostas.
Parabéns à Kgaleria.
Rui Prata, Março, 2008.
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