Desigualdades
October 17, 2008 | News
Um projecto entre a Revista Cais e a Kameraphoto.
Exposição patente na Estação do Rossio, Lisboa, até 17 de Novembro.
A Associação Cais e Kameraphoto juntaram-se para assinalar o dia mundial para a Erradicação da Pobreza, dia 17 de Outubro de 2008, com um trabalho que pretende retratar o estado do país e do mundo através da fotografia.
Onze milhões de crianças morrem de subnutrição neste mundo. Há 307 milhões de pobres neste mundo. 815 milhões sofrem de problemas crónicos resultantes de subnutrição grave. Neste mundo, quinze milhões de crianças ficam órfãos da SIDA. Neste preciso instante há perto de dois milhões de crianças a trabalhar na imensa indústria do sexo. Em cada trinta segundos, uma criança morre, vítima de malária. Neste momento, há 777 milhões de pessoas com fome. São estas as nossas vítimas, todas sofrendo de tudo quanto lhes falta. Não se percebe bem, portanto, se é arbitrariedade ou a simples ordem dos factores que os condena a eufemismo. Mas a questão, provavelmente, é esta: Será bom nascer neste mundo?
Somos a gota ou o charco? Somos o charco ou a pedra? Somos alguma coisa, nos sete biliões que nós somos? Importaremos? Que efeito temos nos outros? Em que ponto estamos? Onde exactamente, nas latitudes, nas longitudes, nas perpendiculares, nas profundezas, nas assimetrias simétricas que alastram como ondas, inúteis contra marés, encerrando o mundo à pequenez, comprindo-o, comprimindo-nos, mostrando a nossa crueldade congénita, os ossos do mundo onde mais não há que pele, tudo faltando, nada tendo, morrendo as nossas crianças ao colo de mães, já sem forças para desesperar? Será bom nascer aqui? Será bom habitar as migalhas que deixam os monopólios? Forças invasoras proclamam-se libertadoras. Fazem-se guerras em nome da paz, pilham-se do subsolo as riquezas de países com chancelas multinacionais, não lhes deixando sequer o pão. Fazem-se campos de refugiados para os refugiados do sítio onde nasceram. Contabilizam-se diariamente os mortos, os feridos, os desalojados, os sem-abrigo, os sem possibilidade, os marginais deste mundo. Olhando para o céu, só vemos fumo. E nem um sinal de Deus. Ou de um pára-quedas com arroz.
Onde houver pobreza, onde quer que se morra de fome, estamos prontos a acender uma vela por eles, convencendo-nos que estamos a combater o problema. Somos magnânimes, complacentes, nobres. Dormimos melhor. Tratamos da nossa unidade, fingindo que temos causa colectiva. Mas a causa somos nós. A causa somos nós.
Luís Pedro Cabral
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