Portugal Desigual
Onze milhões de crianças morrem de subnutrição neste mundo. Há 307 milhões de pobres neste mundo. 815 milhões sofrem de problemas crónicos resultantes de subnutrição grave. Neste mundo, quinze milhões de crianças ficam órfãos da SIDA. Neste preciso instante há perto de dois milhões de crianças a trabalhar na imensa indústria do sexo. Em cada trinta segundos, uma criança morre, vítima de malária. Neste momento, há 777 milhões de pessoas com fome. São estas as nossas vítimas, todas sofrendo de tudo quanto lhes falta. Não se percebe bem, portanto, se é arbitrariedade ou a simples ordem dos factores que os condena a eufemismo. Mas a questão, provavelmente, é esta: Será bom nascer neste mundo?
Somos a gota ou o charco? Somos o charco ou a pedra? Somos alguma coisa, nos sete biliões que nós somos? Importaremos? Que efeito temos nos outros? Em que ponto estamos? Onde exactamente, nas latitudes, nas longitudes, nas perpendiculares, nas profundezas, nas assimetrias simétricas que alastram como ondas, inúteis contra marés, encerrando o mundo à pequenez, comprindo-o, comprimindo-nos, mostrando a nossa crueldade congénita, os ossos do mundo onde mais não há que pele, tudo faltando, nada tendo, morrendo as nossas crianças ao colo de mães, já sem forças para desesperar? Será bom nascer aqui? Será bom habitar as migalhas que deixam os monopólios? Forças invasoras proclamam-se libertadoras. Fazem-se guerras em nome da paz, pilham-se do subsolo as riquezas de países com chancelas multinacionais, não lhes deixando sequer o pão. Fazem-se campos de refugiados para os refugiados do sítio onde nasceram. Contabilizam-se diariamente os mortos, os feridos, os desalojados, os sem-abrigo, os sem possibilidade, os marginais deste mundo. Olhando para o céu, só vemos fumo. E nem um sinal de Deus. Ou de um pára-quedas com arroz.
Onde houver pobreza, onde quer que se morra de fome, estamos prontos a acender uma vela por eles, convencendo-nos que estamos a combater o problema. Somos magnânimes, complacentes, nobres. Dormimos melhor. Tratamos da nossa unidade, fingindo que temos causa colectiva. Mas a causa somos nós. A causa somos nós.
Luís Pedro Cabral
Pauliana Valente Pimentel inaugura na colectiva “Afrontamentos 3″
Pauliana Valente Pimentel inaugura na colectiva “Afrontamentos 3″ , na galeria João Pedro Rodrigues (Porto), no dia 18 de Outubro pelas 21:30 horas
“Projecto colectivo, o qual vários artistas plásticos apresentam uma obra cujo conceito “Afrontamentos” serve como matriz. Esta palavra ambígua, ganha uma particularidade plástica e conceptual ao confrontar o público com várias soluções em que é esperada uma reacção activa e não indiferente por parte deste, podendo variar do encantamento ao espanto, do erotismo à reflexão social. A intimidade é aqui questionada, assim como o conceito de espaço enquanto galeria ou espaço cultural, tendo as soluções artísticas a capacidade de o transformar, tal como o espectador, afrontado. Este Projecto pretende inter-agir com alguns centros culturais, museus e galerias, como no exemplo de “Afrontamentos 1″, dupla de André Fradique e Vanessa Muscolino, na Galeria Projecto de Vila Nova de Cerveira e em “Afrontamentos 2″ na Casa da Guia em Cascais, neste caso uma colectiva. Este projecto, não pretende ficar limitado a um único espaço físico, nem
incluir sempre os mesmos artistas no seu projecto, conseguindo assim uma versatilidade e continuação, cruzando experiências de norte a sul do país por parte dos artistas e do público.”
A inauguração será transmitida em directo a partir do site www.joaopedrorodrigues.com.
Exposição Patente até ao dia 19 de novembro de 2007.
Horário de funcionamento
Aberto de terça a sábado
Galeria das 15h00 às 19h30 | Escola das 10H00 às 19h30 / 21h30 às 23H30
TRABALHO DE CAMPO de Dora Nogueira, inauguração na 5ª - 16 de Out. na [KGaleria]
Testemunhos
Com participação de Augusto Brázio, Pedro Letria e Sandra Rocha, Kameraphoto.
Testemunhos — Trajectos de Qualificação é um projecto desencadeado e produzido pelo IEFP em que, ao longo de mais de um ano, envolveu dez autores — da fotografia, ao documentário e à escrita — que desenvolveram trabalhos tomando como referência o tema da qualificação, na dupla dimensão escolar e profissional. Procurou-se, deste modo, potenciar uma representação actualizada e empiricamente sensível sobre o quotidiano de pessoas e perfis sócio-profissionais, sobre contextos de formação e sobre condições sociais e ambientes laborais em que o desafio da qualificação tem vindo a adquirir especial oportunidade e relevância pública.Esta exposição engloba três componentes fundamentais: um documentário, Nacional 206, realizado por Catarina Alves Costa, sobre uma fábrica de têxteis situada no Vale do Ave. Seguem-se as fotografias de Patrícia Almeida feitas em cinco centros de formação, maioritariamente localizados nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Por fim, surge o conjunto de sete séries de fotografias e de escritos sobre o quotidiano de sete pessoas que têm em comum o facto de frequentarem ou de terem frequentado programas de formação profissional. Os sete fotógrafos são: Augusto Brázio, António Júlio Duarte, Sandra Rocha, André Cepeda, Pedro Letria, Augusto Alves da Silva e João Serra. Os textos são da autoria de Kathleen Gomes.Deste modo, por entre imagens e palavras, Testemunhos — Trajectos de Qualificação propõe uma incursão sobre experiências reais nos domínios do trabalho e da formação, mas também sobre modos e percursos de vida que inevitavelmente nos faz pensar sobre a relação entre trajectos educativos e trajectos profissionais. Esta é, como sabemos, uma reflexão cada vez mais presente e necessária, também porque abrange uma significativa maioria da população portuguesa. Contudo, mais do que descrever e procurar respostas esta exposição pretende sobretudo delimitar um contexto susceptível de mobilizar a nossa consciência individual e colectiva para uma temática que atravessa diferentes aspectos do domínio privado e público e que nos remete, inevitavelmente, para os dilemas e os desafios de um país em mudança.Sérgio Mah(Comissário de Testemunhos — Trajectos de Formação)


