A MINHA LÍNGUA É O OLHAR
O meu olhar deixa-se enfeitiçar, comover, tocar. É sorriso vazio de um menino, em Angola, rebolar sensual de uma mulata, no Brasil, desespero angustiante de uma mulher, na Guiné Bissau. Tem luz e sombra. É grito de dor, brilho de esperança. Ri e chora. Sente. Tem sentimento. Nunca é indiferente porque tem gente dentro.
O meu olhar gosta de caminhar pelo teu olhar. Devagar. De ir e voltar. De voltar a ir para, mais uma vez, poder regressar. Gosta de guardar. Partilhar. Saborear. Tem sempre mais olhos do que barriga. Mas acredita que pode ajudar a mudar a vida dos outros. O mundo dos outros. Tem alma porque não se alimenta de preconceito.
O meu olhar está carregado de passado. Sente-se em casa em Goa, tem a fé que ilumina uma igreja de Díli, entranha-se na penumbra de uma rua de Macau, não estranha a paisagem lunar de Cabo Verde. É o império dos meus sentidos, refúgio das nossas sensações. Vai do Minho a Timor, sem saudosismos, de mão dada com outros olhares.
O meu olhar também tem a força e a ingenuidade do presente. Por isso vive nos sonhos que serpenteiam as favelas do Rio de Janeiro, sobrevive nas paredes feridas de balas que ainda sangram no Cuíto. É luz de Lisboa, tranquilidade que banha o Índico. É morabeza. Tem a pele achocolatada de uma roça de São Tomé e Príncipe.
O meu olhar é sobretudo futuro. O futuro ainda antes de acontecer. É mensageira da ilusão porque confia no teu olhar. Na força do teu olhar. Para compreender os caminhos do mundo, do nosso mundo, para descobrir o melhor lado da estrada, da nossa estrada, basta olhar para ele com olhos de ver. É fogo que arde e se vê.
O meu olhar é a minha Língua. E fala a mesma língua que o teu olhar. O meu olhar e o teu olhar são milhões de olhares que falam a mesma língua. É o olhar de quem fala português. É por isso que estamos juntos. Que continuamos juntos. Apesar de tudo. Nunca se esquece, nunca se perde, a magia do primeiro olhar.
Jorge Araújo